Não é caso insólito, mas gatunos, pérfidos amigos do alheio, naturalmente especializados e equipados, voltaram a atacar no meio das gândaras mais recônditas ou nem tanto. Depois de alguns anos de mais acalmia em que surgiam supostos donos a vender pinhais de outrem a madeireiros, colaborantes ou enganados.
Neste caso que reportamos, o pinhal ficava (fica) próximo da capelinha de Santo António, no sítio do Furadouro, lugar do Silveiro. Nem o santo lhe valeu.
Telefonemas suspeitos
O dono nem queria acreditar no que lhe havia de acontecer. De pé ficaram apenas algumas “varelas” (pinheiros novos), os eucaliptos, de pé ficaram também os troncos. Tão pouco desconfiou de duas chamadas telefónicas no fim do ano passado. Esta é a grande novidade neste tipo de assaltos.
O pinhal, ocupando uma área de 2000m2, é propriedade de Mário Gonçalves, casado no lugar de Águas Boas, que confessou ao nosso jornal, ter na noite do penúltimo sábado para domingo, tomada por grande temporal, uma palpitação que o levou, no domingo, a deslocar-se ao pinhal do Furadouro, ao questionar a razão dos telefonemas que antecederam o corte de pinheiros centenários, de grande porte, diâmetro impressionante (um homem tem muita dificuldade em abraçar qualquer dos troncos sobrantes) e uma altura próxima dos 30 metros.
No primeiro contacto, homem ou rapaz, do outro lado, mostrou-se interessado em adquirir a madeira ou até também o terreno. Porém, o dono escusou-se. Esse pinhal fazia “parte dos altos” que lhe pertencem para fazer face ao resto da vida, isto é, “estavam para minha reserva, caso necessitasse.” Além disso, havia de frisar que” para se criarem pinheiros assim só na vida de um homem”.
Passado algum tempo, nova chamada. Aqui quem fez a ligação perguntou ao verdadeiro dono, se já tinha ido ver o pinhal, pois havia sido capinado o mato, de modo que ficou aberto um caminho de acesso a todo o pinhal.
Interligando os telefonemas com o facto de ter passado pelo prédio, há poucas semanas, e ter verificado que alguém havia cortado e deixado tombado um pinheiro na entrada de acesso – questionando-se a propósito: “por alma de quem fizeram isto ?” – palpitou que lhe tivessem larapiado a madeira. Infelizmente, o palpite bateu certo. A estória tinha estranho prelúdio.
Tudo bem preparado
Os gatunos vinham preparando a nefasta operação, que passou por cortar os pinheiros acima das feridas da resinagem, evitando as bicas cravadas que dariam cabo das serras. Os rolos foram cortados todos com o comprimento de 3 metros.
“Quem quer que fosse andava a brincar comigo”, confessou a JB Mário Gonçalves com grande tristeza estampada no rosto, e concluía: “a coisa estava a ser preparada.”
Nessa mesma manhã de domingo, dirigiu-se ao posto da GNR de Oliveira do Bairro a apresentar queixa, mas ficou a saber que não poderia ser aberto processo, porque não sabia quem se tinha aventurado a retirar (roubar) do terreno madeira tão valiosa e, no mesmo dia, ficou ainda a saber que, no dia de Carnaval, tinha sido “limpo” um outro pinhal por detrás da Porcel, também no mesmo lugar do Silveiro.
Certamente que a GNR, de futuro, irá levar em conta este tipo de situações e as rusgas poderão passar por caminhos secundários para sossego dos proprietários.
Prejuízo elevado
O prejuízo é bastante elevado (muitos milhares de euros). Cortaram 27 pinheiros, entre “alguns mais miúdos” (poucos) e, outros gigantes, tendo, no entanto, na pressa de escapar, abandonado a ramada – “nada desfrançaram” – e os troncos resinados de pé. No topo do pinhal, os larápios serraram também pés de sobreiros, mas, por razões que só eles saberão, acabaram por não levar. Deitado abaixo, há outro pinhal no mesmo sítio, intervalado apenas por outro…
O proprietário, vítima deste grande assalto a seus bens, não contava com o roubo e “não contava com nada disto”, acrescenta para relevar o trabalho e o dinheiro gasto para retirar os troncos e a ramada, à custa de tractor e reboque. Alguns ramos e troncos já foram recolhidos (três tractoradas) e mostram as naturais dificuldades em lidar com a situação criada. Mas ainda há muito mais a levantar do chão.
Armor Pires Mota