Pensamos, hoje, como adultos que somos. Teremos, todavia, saudades da criança que fomos, cada um de nós. Pelo menos, eu tenho e não acredito que esteja só.
Nesse tempo, tudo parecia simples e natural. Jogávamos a bola de trapos, púnhamos o pião a girar e a nicar no dos companheiros, corríamos por ásperos caminhos sinuosos e não temíamos perder o rumo. Íamos sozinhos, logo desde a primeira classe, para a Escola e para a Catequese, sem um naco de receio.
Encontrávamo-nos uns com os outros, numa familiaridade total e ajudávamo-nos mutuamente; compartilhávamos os nossos magros farnéis, durante o recreio; brincávamos, usando as mais diversas maneiras; mergulhávamos o dedo nos pacotes de açúcar que a mãe de cada um tinha lá pelos armários da casa e, quando indagados sobre tal “proeza”, ninguém ousava encobrir. O nosso falar era sempre a expressão comum e pueril da verdade. Também é certo que até desconhecíamos aquilo a que chamavam mentira.
O momento das refeições familiares era sagrado. Elas carregavam a simplicidade, mas, devido à confecção esmerada e diligente materna, nenhum dos filhos ousava ficar de fora por motivos premeditados ou inesperados. Mesmo à mesa de gente pobre, mas honesta, os mais novos aprendiam a usar a verdade em tudo o que poderia ser a actividade dos homens. Assim, permitiam-nos falar de todas as coisas, menos de algumas queixas, pois elas acarretariam consigo o que não era a verdade. Daí que tais assuntos deixavam de ter lugar em circunstâncias tão importantes como se consideravam as refeições porque, enquanto o corpo se alimentava também se nutria o espírito.
Ninguém nos iria incomodar por causa de algum desvio de comportamento em determinado instante. Não havia razão para tal, uma vez que sempre éramos industriados no procedimento direito, perante ocasiões por mais esquisitas que fossem. Também nos indicavam qual a atitude que cada um deveria tomar diante das outras pessoas, sobretudo, se elas pertenciam a um escalão etário superior. Nenhum de nós tentaria enfrentar com a ironia infantil quem se apresentasse, diante nós, menos consentânea com a sua condição social e idade.
A qualquer pergunta que nos fosse feita, respondíamos com lealdade e sem desconfiar sequer de alguma “manhosice” dos inquisidores.
Da nossa boca e do agir saía a pura e indubitável verdade. Ou, melhor, tudo em nós era criança e verdade.
Fomos crescendo em estatura e conhecimentos. Mais desenvolvidos em toda a nossa personalidade física e anímica, começámos então a descobrir e a enfrentar a mentira. Esquecemo-nos, desde esses tempos e com muita facilidade, que o nosso proceder deverá ser, em quaisquer circunstâncias e sempre, sim, sim, não, não, sem meios termos confusos e capciosos.
O mundo foi-nos sendo escancarado com todas as suas vicissitudes concernentes ao bem e ao mal. Apreendeu-se o bem quando, várias vezes, encurralados na miséria do mentir, pudemos compulsar o mal. Nas diversas etapas da vida tivemos o ensejo de conviver com a desfaçatez e ligeireza de posições adoptadas por grandes senhores e grupos, inseridos nos diversos sectores da vida, como trabalho, família, cultura, desporto, política, Igreja e por aí fora.
E, ainda agora, vamos aprendendo com o rumo dos desvios, porquanto também nos apresentamos como estranhos uns dos outros. Desagregados, podemos tornar-nos egoístas, mentirosos, interesseiros, rivais, condenando tudo e todos como até fazendo-nos aparecer em qualquer lado e perante os demais, afirmando-nos os melhores e mais alinhados no convívio em sociedade.
Olhamos para trás. Já a léguas da primeira idade, lamentamos as nossas metamorfoses de crescimento as quais, tão frequentemente, surgem transformadas num espelho de desvirtuamento do Universo, onde todos constituímos parte integrante.
Pobres de nós se, penosamente, deixamos de agir com a verdade da criança, ou temos pejo de sermos sempre crianças.
Texto escrito ao abrigo do anterior acordo ortográfico, por vontade expressa do autor